De modo surpreendente (ao menos pra mim), recebi alguns e-mails já hoje de algumas pessoas pedindo que fossem analisados alguns casos. Uau... tem coisas bem interessantes. Escolhi começar por um cara que disse que tem um amigo que é formado em Logística e toca violão na noite de uma pequena cidade do Brasil e diz que não gosta de cidade grande, e tocando ele ajuda com algumas despesas em casa (ele tem mulher e filho pequeno), mas ele também tem a pretensão de seguir a carreira musical de forma mais séria e profissional.
Vamo lá.
Como tenho vários amigos, colegas e conhecidos músicos (e também sei tocar algumas músicas do Mamonas Assassinas no violão), fico mais à vontade ainda pra falar desse causo.
Acho legal citar o Daniel Kahneman. O Kahneman ganhou o Prêmio Nobel de Economia em 2002 (partilhado com Vernon Smith) por seus trabalhos sobre a psicologia da decisão em finanças juntamente com o seu amigo Amos Tversky. O Prêmio Nobel é concedido pela Acadêmia de Ciências da Suécia e Noruega desde 1901, nas áreas de Física, Química, Literatura, Paz e Medicina. O Daniel resumiu os estudos dele num livro chamado "Rápido e Devagar - Duas Formas de Pensar". Por favor, leiam esse livro: é libertador. Em resumo, o Kahneman descobriu, por meio de experiências comportamentais, que a mente humana basicamente pensa de dois jeitos: rápido e devagar. O jeito rápido é quase irracional, é instintivo, e o jeito devagar é analítico, preciso, criterioso, matemático. Outra coisa ninja que o Kahneman fala é que qualquer tipo de juízo ou opinião emitida por uma pessoa necessariamente tem por base algum tipo de parâmetro. Por exemplo: só existe possibilidade de você dizer que a cor amarela é mais ou menos agradável, mais ou menos bonita se você conhece ao menos mais uma outra cor, como o verde, vermelho, etc. Acho que essas duas descobertas por si só são revolucionárias: as pessoas opinam (e decidem) com base em parâmetros, e a consciência (a mente) humana se manifesta de duas formas claramente distintas: rápido e devagar. Mas e o nosso amigo músico ? O que ele tem a ver com isso ?
É importante saber que PARÂMETRO levou o nosso músico a gostar de música: se foi a influência de um amigo, de um parente, de uma banda famosa, se foi uma fuga pra esquecer um pai alcoólatra, pra fazer sucesso com as meninas, se foi uma forma de chamar atenção das pessoas, por uma desilusão amorosa, pra relaxar, enfim. É importante saber os parâmetros psicólogicos que levaram o nosso amigo a gostar de música e de violão (o instrumento que ele toca), e também os parâmetros ATUAIS que levam o nosso amigo a continuar tocando do modo como ele faz: tocando na noite nas horas vagas do trabalho. Qual foi e é o parâmetro ? Pra pensar em "carreira", em especial a "carreira musical", parâmetro é mortalmente fundamental. E, dentro das formas de pensar do Kahneman, pense na "carreira musical" MUITO DEVAGAR (de forma muito precisa).
É legal pensar nesses parâmetros e/ou e visualizá-los e procurar compreendê-los da maior e melhor forma possível, porque esses parâmetros determinaram e ainda determinam as possibilidades profissionais e/ou pessoais do nosso amigo na música. Parâmetros: ter buscado aprofundamento técnico e teórico em Escolas, Conservatórios, Faculdades e/ou ter aprendido na "Prática". Veja: não é questão de certo ou errado, mais sim questão de tentar entender a mente do nosso amigo músico e os seus parâmetros dentro do mundo da música. Se liga: você provavelmente já ouviu falar de Jimi Hendrix (que foi um "Prático"), mas talvez você nunca tenha ouvido falar de Itzhak Perlman (que é um acadêmico), um dos maiores violinistas vivo do mundo. Nas Artes em Geral, e na Música em particular, fica bem claro que o que se entende por "sucesso" é totalmente relativo. Porém, isso não autoriza todo tipo de estelionato musical, como ocorre com pessoas de má-fé (inclusive em qualquer profissão). O que quero dizer por estelionato ? Quero dizer que o fato de uma pessoa ser ator, músico, pintor, escultor ou qualquer outro tipo de artista não autoriza essa pessoa a falar o que quiser sem apresentar nenhuma prova sobre o que fala: esse é um vício dos "Práticos", porque os acadêmicos apresentam os seu diplomas, títulos, entrevistas e tá resolvido, mas... e o Prático ? Um músico não tem ou teve uma "carreira" simplesmente porque ele acha e decide sozinho na casa dele que tem uma "carreira", ou porque ele tem um monte de foto guardada dele tocando nos últimos 10 anos: a carreira implica num valor ECONÔMICO agregado ao nome do artista. Eu bêbado tocando violão em todos os aniversários dos meus primos nos últimos 15 anos não constitui uma "carreira musical", mas um hobbie, um passa-tempo. A "carreira" é um conceito objetivo: e é justamente talvez pela imensa maioria dos músicos não saberem disso (ou fingirem que não sabem) que cada um fala o que quer, e existem milhares de "produtores musicais", "empresários" e outros bichos por aí nesse ramo. Na Medicina , por exemplo, é muito mais fácil: se o cara fala que é Médico, mas não tem CRM (Conselho Regional de Medicina), você chama a polícia, mas, e se o cara que tá tocando violão no restaurante onde você tá jantando com a sua família erra um acorde (por exemplo, no lugar de um C#m589%%=+%&, ele faz um Eb#@*$>>>!), o que você faz ? Pede outra cerveja de graça ? Liga pra OMB (Ordem dos Músicos do Brasil) ? Chama o Procon e a Equipe do Cidade Alerta ? Percebe ?...
A ausência de regras e regulamentação (e o STF (Supremo Tribunal Federal) já decidiu em 2014 que o músico não é obrigado a se inscrever na Ordem dos Músicos: RE 414426 e RE 795467) leva à desorganização e muitas vezes ao estelionato artístico. Um grande artista se torna grande artista porque pensa na carreira como um conceito objetivo (e não subjetivo da cabeça dele e dos amigos dele), seja qual for o ramo e o estilo. CUIDADO: o fato de algo não ser exato (conceito de "carreira" por exemplo), não significa que não pode ser PRECISO. E "carreira" é um conceito muito preciso.
Olha só: até Mozart saiu de Salzburgo (ou Salzburg), na Áustria, onde nasceu em 1756, e fez inúmeras viagens (com o seu pai Leopold) por praticamente toda a Europa (Inglaterra, França, Alemanha, Países Baixos, Suiça, Itália) desde a sua infância até a vida adulta. Em 1781, Mozart aproveitou que seu "patrão" foi pra Viena e arrumou um jeito de "pedir demissão" e ficar por lá (Viena). Por quê ? Porque Viena era a capital mundial da música naquele momento (parâmetro). As coisas estavam acontecendo em Viena, e até Mozart teve que entender (e aceitar) esse fato: Mozart construiu desde a infância a sua CARREIRA (ele não ficou simplesmente trancado no quarto dele em Salzburg, se olhando nú no espelho, tocando piano e se achando o melhor compositor da galáxia). Importante lembrar: nas suas zilhões de viagens, Mozart tocava para REIS, NOBRES e outras pessoas PODEROSAS (mais uma vez, ele poderia ficar tocando na beira do rio para os seus amigos em Salzburg, mas menos pessoas iriam conhecer as obras dele, mesmo sendo ele MOZART).
O nosso amigo músico que trabalha com Logística pode até não gostar de cidades grandes e capitais (pelo compreensível caos do trânsito, violência, custo de vida, etc.), mas é lá que o dinheiro, as oportunidades e contatos interessantes se concentram. Fazer o quê ? É um fato. Mesmo com o atual poder onipresente do Google-Youtube parece que carreira sólida ainda se faz tocando, aparecendo, VIAJANDO. Isso parece se comprovar observando empiricamente que as "explosões" da internet são sempre de músicas massificadas (que a massa da população consome) e, como se nota, a massa parece não ter muito gosto pra música (ou não ter bom senso mesmo...): por exemplo, Justin Bieber ou MC Guile surgiram do youtube, mas um pianista do quilate do jovem João Elias Soares (do Rio de Janeiro - RJ) não surgiu do youtube (ele pode até ser divulgado (espalhado) pelo youtube, mas não surgiu DO youtube). A "Carreira" do MC Guile depende do número de acessos do youtube, e a "carreira" do João Elias está se construindo a cada partitura, a cada nova apresentação com músicos mais técnicos que ele. Se amanhã a internet desaparecer da face da Terra, a "carreira" do MC Guile acabou, e a do João Elias continua (como aconteceu com Mozart). Mais uma vez: nada contra o Guile e a favor do João ou vice-versa (prefiro deixar meus gostos escusos e subterrâneos devidamente enjaulados). Parece existir uma tendência de que carreiras de virtuoses sejam mais fechadas (acadêmicas), e carreiras mais populares mais abertas (não-acadêmicas).
Não se pode deixar de considerar a linda e brutal força do capitalismo globalizado nesse contexto: se algum investidor resolver derramar R$ 5 MILHÕES DE REAIS sobre a carreira de qualquer músico minimamente ótimo (porque trata-se de um INVESTIMENTO, e não um FAVOR), independentemente do estilo musical, esse artista (música, banda, dupla, trio, etc.) APARECERÁ NA MÍDIA ("Mais Você", "Faustão", "Raul Gil", "Big Brother", dentre outros e outros) e, por consequência, o valor da marca-imagem do artista-músico vai valer muito mais, e seus shows também. E por qual razão abstrata alguma pessoa provida de um cérebro saudável investiria milhões num carinha que toca violão todo sabadão na chopperia ? PORQUE O CAPITALISTA DESEJA RETORNO ECONÔMICO... e MUITO RETORNO, senão ele compraria uma fazenda ou cotas de uma indústria mais rentável. E até onde sei (pelas conversas com o pessoal da música), os esquemas entre Investidor e Artista são variações do seguinte: o investidor põe grana na carreira de um músico mortal (paga programas de Rádio, TV e outros pra divulgar o artista), LOGO, o trabalho do artista passa a ter maior valor-agregado: e em troca, o investidor faz o artista assinar um contrato no qual o artista não ganha quase-nada (além do transporte, estadia e alimentação) durante meses ou anos (às vezes, muitos anos) e todo o dinheiro dos shows e apresentações do artista vai para o empresário (investidor). Em alguns casos, o empresário (investidor) adianta um dinheiro pra crescer os olhos do artista (que na maioria dos casos, vive em situação de quase-miséria). Ou seja: o artista vira um escravo do empresário durante anos (e não pode reclamar, porque assinou um CONTRATO VÁLIDO). Essa é a realidade. E quer saber ? Acho que a maioria dos músicos aceitaria na hora essa escravidão...
Outra opção é você tentar sair vendendo shows por aí... tente, tente, tente, tente, tente. Bares quase sempre não têm dinheiro (ou não querem investir em Shows para aumentar a clientela e as vendas) pra pagar, e Prefeituras só chamam os "amiguinhos" de sempre ou o pessoal do Clã dos Rodeios (seguuuuuuuuuuuuuura...): é mais fácil um mamute passar pelo buraco de uma agulha do que você vender um show da sua banda de "Pop Rock" numa Prefeitura do interior de Minas Gerai ou Santa Catarina. Quer apostar uma Balalaika ? Fechado !
O que voce é (ou quer ser), rapaz da Logística ? Um virtuose ? Ou um músico popular ? Se a opção for virtuose, esqueça se tornar imortal pelo youtube (o youtube só te divulga, mas você vai ter que IMPRESSIONAR OS MELHORES DO MUNDO, AO VIVO E A CORES). Se o opção for Músico Popular, APAREÇA DE TODO JEITO QUE DER (e não só na sua pequena cidade do interior), principalmente através da grande mídia: hoje em dia tem "Ídolos", "SuperStar", "PopStar", "MegaStar", "American Idol", "Star Ninjas" (inventei...) e etc. porque o músico popular depende da massa (e aqui o youtube é mais poderoso) para impressionar os jurados de um programa de televisão ou um "Investidor", e o músico erudito depende de um Zubin Mehta dizer "I liked".
O Daniel Kahneman também conclui que a dor psicológica da possibilidade de perder é maior que a probabilidade ou promessa de ganhar: segundo o Kahneman, essa é razão que faz as pessoas jogarem na loteria (possibilidade de deixar de ganhar), mandarem flores e/ou presentes depois de terem sido abandonados(as) (possibilidade de deixar de ganhar) ou estudarem muito para passar numa prova (possibilidade de perder o prêmio ou a vaga). Psicologicamente, a probabilidade da perda dói infinitamente mais do que a promessa do ganho: logo, sugiro que músicos indecisos estabeleçam outros parâmetros de fontes de renda, assim, a dor psicológica de deixar de ganhar (e aumentar o consumo e conforto material) em outra atividade ou trabalho vai obrigar o músico a decidir com bases em seus planos de vida.
Então, amigo músico que trabalha com Logística, se o seu caso não é nem um (popular) nem outro (erudito), sugiro que você faça um belo MBA em Logística e Supply Chain (que tende a ter um melhor e maior impacto sobre a sua renda e estabilidade financeira no médio prazo), faça uma diplomacia com o seu gerente, passe mais tempo com a sua mulher e filho e economize com ensaios, horas de estúdio, combustível, instrumento musical e outros imprevistos lindos. Lógico: você pode também estar tocando na noite num bar para esquecer os problemas e sair um pouco das garras daquela pessoa de 140 kilos para quem você jurou lealdade e fidelidade na riqueza e na pobreza, na saúde e na doença.
Decida.
Abração.
Mande você também o seu "causo", que poderemos analisar aqui. Sigilo absoluto.
capitalismoglobalizado@gmail.com
Referências:
http://www.saraiva.com.br/rapido-e-devagar-duas-formas-de-pensar-4074748.html
http://www.mozarteum.at/en/museums/mozarts-birthplace.html
http://portal.fmu.br/ead/pos-graduacao/curso/804/mba-em-logistica-e-supply-chain.aspx
http://pt.wikipedia.org/wiki/Zubin_Mehta
http://www.zapmusico.com.br/musico.php?idc=3481
https://www.youtube.com/watch?v=KxXvhVqEGSE
http://www.justinbiebermusic.com/
http://pt.wikipedia.org/wiki/Wolfgang_Amadeus_Mozart
http://pt.wikipedia.org/wiki/Itzhak_Perlman
http://pt.wikipedia.org/wiki/Pr%C3%A9mio_Nobel
http://www.stf.jus.br/portal/cms/verNoticiaDetalhe.asp?idConteudo=269293


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