Oi!
Recebi um outro e-mail ninja ("ninja" é o meu jeito de dizer que é muito legal, ok ?) de uma mulher (vou chamá-la de menina). Essa menina tá revoltada com uma amiga que, segundo ela (a menina que me mandou o e-mail), a amiga senta na mesa do bar toda semana e mente na cara de pau pra todo mundo que trabalha num alto cargo de gerência de uma multinacional (que ninguém conhece). A minha leitora quer saber porque amiga dela faz isso. Esse é o caso de hoje.
Quando nascemos, somos uma coisinha fofinha que dá vontade de apertar. Com o tempo, ficamos menos fofinhos (alguns continuam fisicamente fofinhos...), e somos convidados a não ter outra opção senão frequentar uma Instituição chamada "Escola". Se você analisar com muita calma, pode notar que a esmagadora maioria das suas melhores e maiores amizades se fizeram na escola: seja no pré-primário, no ensino fundamental, no ensino médio (Colegial), no Cursinho (se você acabou de chegar de Saturno e não sabe o que é Cursinho, eu tento explicar: Cursinho é uma empresa (que tem finalidade exclusiva de lucrar) que ensina de verdade (com finalidade prática: passar no Vestibular) as matérias que a Escola Normal ensina de "mentira") ou na Universidade e Faculdade (Graduação, Pós-Graduação, etc.). E a experiência prática mostra que, em regra, a ESCOLA É UMA MÁQUINA DE SOCIALIZAÇÃO: fazer amizades, colegas, arrumar namorados e namoradas, montar bandas, criar um Google ou Facebook, etc. Digo "em regra" porque, se você pesquisar bem, vai achar algumas Escolas, Professores e métodos bem ninjas por aí. O que quero dizer sobre a Escola é que, em regra, são os alunos extraordinários que fazem da Escola uma grande Escola, e não contrário. E esses alunos extraordinários provavelmente seriam extraordinários em outras Escolas similares.
Mas além disso, tem uma coisa safada com relação à Escola e que é a minha maior crítica à Escola (que discuto semanalmente com meus maiores amigos e colegas de diversas áreas do conhecimento): A ESCOLA (E OS PROFESSORES) MENTEM PARA OS ALUNOS. A Pedagogia (Pedagogia é a Ciência que estuda a Educação e a Aprendizagem) aplicada ainda hoje nas Escolas é platônica (referência à Platão, o filósofo grego do Ideal), portanto mentirosa e utópica, pois pinta um mundo perfeito que simplesmente não existe nem mesmo dentro da sala de aula. Isso pode ser comprovado pelo crescimento generalizado do número de casos de violência na sala de aula entre professor e aluno, principalmente (mas não só) na Escola Pública.
Lembro uma vez (nos idos de 1999) que, ao entrar numa sala como professor substituto de Matemática (porque a professora faltou) para dar a última aula (umas 9 horas da noite de uma sexta-feira) para uma turma medonha do 3º Colegial Noturno de uma Escola Pública de uma cidade do interior do Brasil, a Inspetora de Alunos (aquela tiazinha ou tiozinho que fica fiscalizando os alunos no corredor da Escola...) me pegou pelo braço e disse "Cuidado hein... esse 3º Colegial é perigoso". Quando entrei na sala, parecia um show simultâneo do Racionais MC (banda de Rap brasileira) com Pantera (banda de metal americana): gente grande, cara de mal, revoltada, com fome, com sede, hostil, com ódio, punho fechado. Em tese, eu tinha que ensinar a "Soma da Progressão Aritmética (PA)" (lembra ? A fórmula é Sn = (a1 + an) (n/2)... tem a historinha do grande matemático Gauss que, aos 6 anos de idade, calculou a soma 1+2+...+99+100=5050 de cabeça, etc. etc.). O ideal da Pedagogia Platônica dominante me sugeria em ser tradicional: "Olá ! Boa noite ! Tá friozinho, né ? Então gente... a professora faltou e eu vou substituí-la hoje... e hoje temos... P-R-O-G-R-E-S-S-Ã-O A-R-I-T-M-É-T-I-C-A... que legal, né ?". Pois é... tranquilamente naquela sala algumas pessoas deveriam saber ou se interessar em saber o que é "Progressão de Regime Prisional" (em Direito Penal, é quando um preso ou presa, na cadeia, vai de um regime tipo fechado para o regime semi-aberto ou aberto) mas "Progressão Aritmética" ? Nem fudendo...
Nos 20 segundos entre eu entrar na sala e deixar minha mochila na mesa do professor, foi uma vaia geral e muito, muito, muito forte, além de ser alvo de uma artilharia de objetos: papéis, canetas, pedaços de carteira, cigarros, chinelos e até um preservativo um aluninho mais serelepe me arremessou (uma moça grávida, com um barrigão, até veio me consolar...). Pois bem, depois da primeira ofensiva bárbara, pensei que aquelas pessoas revoltadas não estavam revoltadas comigo, mas com a imagem do conservadorismo e idealismo utópico que os professores de classe média (que estacionavam os seus carrões na frente da escola) representavam diante da realidade pobre e odiosa daquelas pessoas. Lembrei-me então do Ari: Aristóteles. Contam os filósofos e historiadores que o Aristóteles foi aluno (discípulo) de Platão e, resumidamente, discordou do Platão com relação àquela conversa do idealismo: pra Aristóteles, a verdade tá aqui embaixo, no mundo real, no mundo físico, da experiência prática, e pra Platão existe um mundo ideal, das idéias, perfeito, etc. Até Kant, no século XVIII, dar uma bicuda (bicuda é um chute de baixo pra cima que quebra tudo, ok ?) nesse assunto, o Ideal de Platão e o Real de Aristóteles dividiram o pensamento do mundo: e quer saber ? Pra quem não conhece as idéias de Kant (talvez 90% da Humanidade), os pensamentos de Platão e Aristóteles ainda dividem e governam o mundo, comprovadamente pela rivalidade mundial atual entre teístas e ateístas.
O Aristóteles me ajudou naquela turma de 3º colegial revoltada porque lembrei de uma frase atribuída à Filosofia de Aristóteles:
"Nós somos aquilo que fazemos repetidamente. Excelência, então, não é um modo de agir, mas um hábito".
Pensei: essa moçada não entende a hipocrisia da classe média, e os seus sorrisos e cumprimentos falsos... eles querem REALISMO, CHOQUE, PORRADA, SHOW, AVENTURA, EMOÇÃO, AÇÃO: essa é a linguagem que ENTENDEM... esse é o HÁBITO DE VIDA DELES. Como quem tira um CD do "Slayer" (Slayer é uma banda de Trash Metal norte-americana muita famosa entre os fãs no Rock-Metal, conhecida pela brutalidade da sua música) do Bolso e, diabolicamente, caminha até o aparelho de som numa festa de aniversário de uma princesinha de 15 anos, quando a segunda ofensiva bárbara começava o seu ataque, em câmera lenta peguei um giz e calmamente desenhei na lousa um pinto ereto gigantesco do tamanho total do quadro negro (lousa), com os testículos imensos e peludos em baixo. Conforme o pinto ereto tomava forma no quadro negro, a ofensiva foi diminuindo, o barulho foi diminuindo, os sons sumindo... até que, num silêncio total intergalático, uma voz escrota masculina desabafou lá do fundo da sala: "véio... esse é doido memo... o cara é cabuloso...". Isso foi equivalente ao Chefe de uma tribo canibal me passar o Cajado do poder no meio de uma dança em volta da fogueira durante um sacrifício humano: eles me viram como um IGUAL, E ME RESPEITARAM. Nos vinte minutos finais que eu tinha, consegui até resolver um exercício da FUVEST (Fundação Universitária para o Vestibular, que faz o Vestibular da USP - Universidade de São Paulo) sobre a soma da Progressão Aritmética, e no final um casal vestidos com jaquetas dos Racionais MC me agradeceram e disseram que nunca tinham achado Matemática tão legal (talvez por eles nunca terem entendido a linguagem social de quem ensinava Matemática). É óbvio que o assunto se espalhou, e o Jesus Cristo aqui foi devidamente crucificado: a Diretora da Escola me chamou na semana seguinte e disse que a professora quem eu substituí ficou muito brava porque eu ensinei "mais do que devia" e que "os alunos não querem mais ter ela como professora". Por fim, com um semblante (cara) maternal a Diretora da Escola Pública me disse:"Não leve a mal... você é bom... mas não aqui... tá bom ?". Hehehe... que gostoso... que gostoso...
Contei tudo isso pra tentar mostrar que a Educação formal é Platônica, Ideal, mas nos afasta do mundo Real, das coisas mundanas, das pessoas de carne e osso que tem problemas reais e que adorariam Ciência e Filosofia se, de algum modo, a Ciência e a Filosofia pudessem de fato ajudá-las ou resolver os seus problemas reais, materiais, humanos. E quero deixar claro que não acho que é culpa exclusiva dos professores ou diretores de escola. Não ! A Educação é LEI (lei jurídica). No Brasil, é a lei federal nº 9.394/96: Lei de Diretrizes e Bases (LDB) da Educação Nacional, baseada nos artigos 205 a 214 da Constituição Federal de 1988 - CF/88 (a Lei Máxima do Brasil). Então veja... a questão é muito mais sinistra e profunda... a hipocrisia e o erro estão na Lei, na Constituição Federal: a diretora da Escola se baseou na LDB pra me mandar embora da escola. A questão não é PEDAGÓGICA, é POLÍTICA (são deputados federais e senadores que fazem as leis).É triste, mas é real, e o resultado são multidões de pessoas que aprendem sobre um mundo lindo, de ética, cidadania e mundos encantados em todas as fases da sua educação e, quando caem no mundo adulto, tem boletos que chegam sem parar, multas de trânsito, cobranças pelas palavras ditas e atitudes cometidas, concorrência monstruosa no mercado de trabalho e muitas vezes dentro da própria família: ou seja o mundo REAL de Aristóteles. E como já percebeu e ensinou Aristóteles: você é o que você faz (e pensa) muito. Se a amiga da menina que me escreveu tem o hábito de mentir que trabalha numa multinacional, ela desenvolve e desenvolveu uma certa excelência em mentir, ou seja, é uma mentirosa.
Um pensador brasileiro chamado Paulo Freire propôs a seguinte idéia: Pedagogia do Oprimido. Basicamente, o Paulo fala que os educadores devem assumir um papel combativo, revolucionário, e conscientizar os alunos e pessoas sobre uma ideologia opressora. As idéias do Paulo são totalmente influenciadas por Karl Marx (o teórico do Comunismo, Socialismo, tomada do poder pelo proletariado, etc.) e, posso falar ? Acho que a idéia (Pedagogia do Oprimido) do Paulo é legal, mas apontar culpados como solução (ideologia opressora) não é legal. Não tem inimigo quando se fala em Educação: podem existir empresas querendo lucrar (Escolas Particulares, Cursinhos, Universidades, etc.), professores ruins e desmotivados, falta de Investimento Público e Corrupção dos agentes públicos, leis retrógradas, mas não uma "ideologia opressora". Pra chegar a Kant, tudo o que eu fiz foi ir à Biblioteca (e escapar dos discursos nazistas, circulares e infinitos do meu pai) e ler um pouco sobre introdução à filosofia: não tive que jogar pedra em nenhum banco ou odiar o capitalismo. Humildemente, acho que a Pedagogia do Oprimido politiza demais (e "de menos") o aprendizado, e isso não é legal.
A amiga da minha leitora precisa de uma dose cavalar de Aristóteles: talvez a vida "sem graça" dela possa ser muito mais divertida e emocionante que uma mentirinha sem sal. Hábito: a chave da evolução das espécies e da adaptação. Amiga leitora, primeiro prova para a sua amiga que ela não trabalha em nenhuma multinacional. Depois, vão juntas no cinema, fazer um curso de gastronomia, num club de swing, num Salão do Automóvel, pular de pára-quedas, montem uma barraca de cachorro-quente com o jeitão de vocês... se inscrevam no Médico sem Fronteiras... mostre à sua amiga outros hábitos, além da mentira, nos quais ela pode desenvolver a excelência.
Nada contra Platão tá... O cara é bom... rsrsrs...
Abraços.
Mande o seu caso: capitalismoglobalizado@gmail.com
Referências:
http://www.brasil.gov.br/educacao/2012/04/etapas-do-ensino-asseguram-cidadania-para-criancas-e-jovens
http://pt.wikipedia.org/wiki/Ensino_fundamental
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9394.htm
http://pt.wikipedia.org/wiki/Plat%C3%A3o
http://pt.wikipedia.org/wiki/Arist%C3%B3teles
http://www.suapesquisa.com/aristoteles
http://pensador.uol.com.br/aristoteles_frases/
http://www.fuvest.br/
http://www5.usp.br/
http://pt.wikipedia.org/wiki/Pedagogia_do_Oprimido
https://franfreire.wordpress.com/2013/04/05/resumo-critico-do-livro-pedagogia-do-oprimidoresumo-critico-do-livro-pedagogia-do-oprimido/
http://www.vagalume.com.br/racionais-mcs/
http://pantera.com/
http://pt.wikipedia.org/wiki/Pantera_%28banda%29
http://www.slayer.net/us/slayeralbum15
http://www.brasilescola.com/matematica/progressoes-aritmeticas.htm
http://www.somatematica.com.br/emedio2.php

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